Oratório


Vê-la

é acender

a luz que há

dentro de mim.

Vela

remédio santo

contra toda

saudade.


Ícaro Estrela

Addio Amore!



P'ra que olhos nos olhos?
Se a verdade é tênue
quando estamos face a face.

É melhor nos encondermos.
Não nos encontrarmos.
Assim não conjugaremos juntos
o defectivo verbo sofrer. 

Ícaro Estrela

Vogais




"Como podes me amar tanto assim se você não sabe quem eu sou?" foi a pergunta que A impaciente fez a I, durante um encontro casual. I olhando-a nos olhos e buscando esconder as mãos trêmulas, respondeu hesitante: “Não sei. Alguém pode explicar o amor?” A então sorriu e retrucou: “Boa resposta.” E depois de alguns segundo em silêncio, prosseguiu: “Mas não soluciona a questão.”
I olhou-a novamente. O sorriso anteriormente dado havia se apagado e uma ruga de seriedade aparecera no canto dos lábios. “Não sei o que dizer. Desta vez, você me pegou. Eu só sei que te amo! Não há explicação. Não posso dizer se de menos ou se de mais. Não posso! Você precisa acreditar em mim e deixar as coisas rolarem.”
A respirou fundo. Havia um enigma pairando sobre a cabeça dos dois. Desejava entender I que tinha no olhar um brilho terno e cativante, mas sendo tão pragmática não podia aceitar a ideia de ser amada com tanta intensidade por um homem que a desconhecia. “Somos dois estranhos”, pronunciou. “Sim, não passamos de dois estranhos, mas para o amor não há estrangeiros”, respondeu I confiante, lembrando-se de uma frase que ouvira de alguém ou lera em algum livro.
Você tem olhos lindos!”, desviou. “Pára com isso! Você não pára de me fazer elogios... Estou ficando encabulada.”
 “Eu quero saber quem você é. Me deixa tentar... Pelo menos isso! Se somos estranhos, me deixa frequentar a sua vida... descobrir aos poucos os segredos que você tem. Me deixa te amar desta forma, todos os dias um pouquinho. Talvez assim eu consiga responder a sua pergunta.”
A aguçou o olhar para ver o que os olhos de I denunciavam e não conseguiu notar nada de que pudesse desconfiar. Estava quase cedendo. Diante de palavras tão amorosas, via-se disposta a receber todo aquele carinho que I dizia ter para com ela, mas o seu coração já não era tão terno, tão receptivo e ela sabia que se entregar ao amor novamente exigia sacrifícios e talvez ela não estivesse ainda pronta para assumi-los. Além do mais, tinha medo de machucar I com a sua suposta incapacidade de amar. Nunca havia experimentado a sensação de ter um homem antes em suas mãos, tão submisso, tão declaradamente apaixonado. Aquilo lhe assustava.
I olhava-a com uma ternura indescritível. Acompanhava os seus gestos delicados de borboleta e os seus olhos astutos de raposa que ele tanto dizia amar. A sorriu. Por um instante I pensou ter sido atingido por um raio. Mas estava vivo. Seu coração corria no peito. Vivo como nunca esteve. Estendeu e tocou as mãos de A. Ela tentou escapar, mas ele foi mais rápido. “E aí o que me diz?” A suspirou. “Você não vai querer amar uma pessoa tão imperfeita,” respondeu. “Eu não vou querer amar outra pessoa que não seja você!” rebateu I, com firmeza. “Escuta, você é um cara incrível, mas eu não posso te dar esperanças. É melhor a gente parar por aqui, respondeu A, retirando as mãos.
“Por que parar aqui? A gente nem começou ainda, se lamentou I visivelmente mordido. “Não sei. Não me pergunte o porquê! Tem que ser assim... Não me torture mais. É melhor ficarmos desse jeito... amigos. Assim ninguém se machuca.”
“Eu já estou machucado. Você não sabe o quanto. Mas se isso é o que você quer, eu não vou mais te torturar. Por mais que eu te queira, você deve ter lá as suas razões. Nunca foi tão difícil tocar um coração. Já que você construiu um muro, eu não vou tentar atravessá-lo.”
A verificou se I estava sendo sincero. Seus olhos, seus lábios não tremeram. I dizia aquelas palavras do fundo do coração. Teve a intuição derradeira de que ele não iria mais importuná-la. Levantou-se da cadeira, pegou a bolsa e disse: “Bem, a gente fica assim. Tá certo?”
“Tá, tá certo. Como você quiser. Você vai, mas esse sentimento fica. Eu vou dar um jeito nele, respondeu I incerto. “Então, tchau!”, estendeu A amistosamente a mão. “Então, adeus!”, devolveu seco I negando-se a terminar aquele encontro com um simples aperto de mãos. A deu-lhe as costas e não olhou mais para trás. I observou-a se afastar; a sua silhueta luminosa se perdendo nas sombras da noite. Tirou o dinheiro para pagar a conta e com ele veio o guardanapo que no susto havia enfiado no bolso antes de A chegar.
Nele havia escrito, num surto de romantismo bobo, as letras iniciais do nome dos dois. Um desejo que ele havia contornado com a figura de um mal traçado coração. Olhou atentamente para aquele simbólico monograma e teve uma surpreendente revelação. “Não daria certo”, pensou. “Estava escrito que não daria certo.”, compreendeu resignadamente.  Era o que aquelas duas vogais A e I, lado a lado, dolorosamente anunciavam.

    
Ícaro Estrela

Tatuagem




Olho para você
e me sinto imensamente
inundado
por um desejo mais que
inusitado
de me
inscrever
 versos de amor
na superfície
da
sua pele.


Ícaro Estrela

Verde-Esperança

Saudades de você, primo!


Estava sentado sob o sol, lendo um livro qualquer, quando um inseto esvoaçou, atraindo a minha atenção. Era um gafanhoto. Para ser mais específico, aquele bichinho que as pessoas se habituaram a chamar de esperança. Não era essencialmente verde. A sua coloração estava mais para o marrom; mas era inegavelmente uma esperança.
O inseto caiu desengonçado perto dos meus pés. Uma cachorrinha nossa, vendo-o pousar, imediatamente se aproximou tentando abocanhá-lo. Com muita presença de espírito, eu o protegi, colocando-o na folhagem exuberante de um bico de papagaio.
Voltei ao livro. Porém, o fio encantado da leitura havia se rompido. Não consegui dar mais corda às palavras. Os meus olhos curiosos buscaram o animal que, imóvel, curtia o seu dolce far-niente em cima da folha escarlate. De repente, me chegou a lembrança de um dia como este. Um déjà vu... A lembrança de um dia remoto, quando uma pequena esperança veio avizinhar-se de mim e de um primo já falecido.
Estávamos os dois na calçada, quando o inseto apareceu. O menino — ainda sem entender as grandezas das pequenas criaturas — ameaçou esmagá-la com o pé. Protestei e, mais que depressa tratei de apanhá-la com delicadeza. Fiz uma pequena brecha por entre os dedos, e espiei por alguns instantes o pequenino. E sorridente, cheguei à sensível conclusão que devia deixá-lo ir.
Abri a mão e lancei no espaço o gafanhoto para que ele, em liberdade, decidisse que rumo seguir. Ele apenas adejou, pousando no meio do afasto. Estaria apenas se preparando para um novo impulso? — pensei. Estava errado. Ali, ele ficou. Como em uma encruzilhada inesperada, sem saber para onde ir. Na outra ponta, desenhava-se um caminhão. Ansioso, tentei espantá-lo com gestos e exclamações afetadas. Mas o que são gestos e exclamações humanas afetadas para uma criaturinha tão pequena como aquela? Meu primo sorria, comprazendo-se com o veículo que rapidamente se aproximava. Já não se podia fazer mais nada. Um segundo, e crack. A roda do caminhão tinha passado por cima dele. No asfalto e na minha consciência, havia ficado apenas uma mancha verde.
Bem, a esperança se foi. Meu primo também. E com eles a minha arrogância em querer proteger todas as coisas aparentemente vulneráveis. Daquele dia, tirei esta amarga lição, de que nem sempre é possível proteger o que amamos ou estimamos, que às vezes, a nossa proteção pode sufocar ou antecipar o não esperado.
A esperança de hoje continuou quietinha na folha. Felizmente, desta vez não havia cometido nenhuma besteira. A criaturinha, são e salva, me namorava com os seus tímidos olhinhos negros. E eu, admirado, olhava também para ela, buscando me lembrar da última vez que uma esperança tinha vindo pousar em meu jardim.



Ícaro Estrela

Olho Clínico


Espelho, espelho meu

Existe alguém mais patético

Do que eu?


Ele embaçou

e não respondeu.


Quem cala, consente!


Ícaro Estrela

A Prazo



Buscam as pessoas rápidas soluções

frequentam igrejas, passam cheques sem fundo

rogam a Deus e aos Bancos privados

empréstimos-pontes

para serem pagos em 20, 60, 1000 vezes

e esperam, impacientemente,

ter seus pedidos atendidos

via Sedex.


Ícaro Estrela

Ode ao Relógio




Teus olhos me acompanharam
e ainda me espreitarão.

Tu estenderás a tua mão
dura e calejada
e me ensinarás os segredos
de como fazer o pão.
As abelhas deixarão a sua doce
lição em forma de mel
e de flor em flor tentarão
esgotar toda a substância poética
que há em mim e dispersa nos dias.
 

Teus olhos me iluminarão
como dois faróis.
Serão eles, as estrelas assinaladas
na incerteza do meu caminho.
Delas, eu duvidarei e depositarei
a minha fé.
Serei um barco a correr, atado
a correntes estranhas,
sem conhecer o porto a que se destina.
 

Tu serás meu pai, meu padrasto
um anjo frio de metal
que nos braços me arrastarás
pelas ruas e farás de mim
uma ânfora cheia de vida.
 

Receberei de ti
o raso e o profundo
o doce e o amargo
o ferro e o cobre
o saber e o sabor
E a infalível certeza de que, um dia,
terei tudo isto esvaziado.


Ícaro Estrela

Monólogo de uma Personagem sem Importância


“A gente não escolhe quem amar. O amor não é uma escolha, é uma imposição. Talvez de todos os sentimentos seja o amor, a emoção mais autoritária, mais despótica que nos obriga a aceitar aquilo que não é razoável e a receber aquilo que não nos é benéfico. Sorte têm os amantes que verdadeiramente se encontram. Aqueles que se reconhecem no olhar. Mas estes estão cada vez mais raros.

O amor é um grande tirano. Veja só o que ele tem feito comigo! Tem me aprisionado há três anos. Tem me feito chorar e implorar por uma mulher que não se importa nenhum um pouco e que deve ainda zombar do que sinto.

Esse amor, que os poetas e músicos cantam e pintam como um demônio coroado de flores, tem me arrancado as noites de sono, me privado da razão e me deixado à espera de algo que não virá.

Se tem beleza o amor? Isto eu não sei. Até agora só lhe viu a carranca. Tem a verdade do sofrimento; a verdade do meu sofrimento. Mas é incompleto, duro e, num desassossego, me faz definhar em um lugar esmo e sombrio, em um lugar que pertence ao outro e que nunca, por razão alguma, será meu.

Romântico, eu persisto... Ironicamente, me deixo moldar por esse sentimento que tanto abomino. É o amor o pior de todos os demônios, o mais cruel...”


Os Verdadeiros Alienígenas


“Alô, alô marciano

Aqui quem fala é da Terra

Pra variar, estamos em guerra

Você não imagina a loucura

O ser humano tá na maior fissura...”

(Rita Lee e Roberto de Carvalho)


Os jornais da semana noticiaram um fato curioso: quatro adolescentes de uma pequena cidade do Panamá encontraram uma estranha criatura que classificaram como “vinda de outro mundo”. Com medo de serem atacados, os jovens mataram a pedradas o suposto ET e depois desovaram o seu cadáver em um lago. Os rumores sobre ‘o alienígena’ rapidamente se espalharam, chamando a atenção da imprensa e de estudiosos locais.

Até o momento, os cientistas não souberam identificar a origem de tal criatura. Alguns, no entanto, afirmam se tratar de um animal desconhecido ou com problemas de formação. O que mais espanta nesta história é que a criatura não apresenta características físicas similares a de outros animais e teria supostamente tentado agarrar um dos jovens.


.....


Depois que o famigerado chupa-cabras deu um bordejo por terras mineiras, não duvido de mais nada. Ultimamente ando abraçando a tese do apresentador Jô Soares: “Não me assusto com mais nada! Se essa caneca me disser bom dia, eu respondo: Bom dia, caneca!”

Diante das inúmeras coisas incríveis que acontecem todos os dias, por que eu haveria de não acreditar em extraterrestres e em discos voadores? Quer coisa mais absurda do que bala perdida e milícia formada por policiais. Cada vez mais suspeito da realidade e penso vivermos em uma bem enredada ficção científica.

O que me motivou a escrever esta crônica, ops, esta prosa (ainda não me sinto à vontade com a nomenclatura “crônica”) não foram as notícias sobre o mais novo ET do pedaço, mas sim a crueldade com que os rapazes panamenhos trataram o “pobre” visitante do espaço. Pode parecer algo incoerente pensar assim, mas temo que esse modo de tratamento não seja tão incomum e, pode ser estendido a qualquer um que apresente — digamos — traços e qualidades não muito ortodoxas.

O que justifica o ataque ao ET? Será que a criatura aparentemente frágil teria realmente tentado atacar os rapazes, ou o medo do desconhecido teria despertado nos jovens o sentimento da injustificada vilania? Realmente não sei. Sou humano e não sei o que faria se estivesse numa situação do tipo. Mas, daqui do meu mundinho, observando de longe, com toda a certeza não faria o mesmo. Tentaria, talvez, uma aproximação, estabelecer algum tipo de comunicação, dizer um olá à criatura.

Assombro maior que cair nas armadilhas do inconsciente coletivo e das experiências ainda não comprovadas, é deixar-se arrastar pela ignorância e pela violência, quando diante de algo ou alguém que nos parece estranho somos possuídos pelo preconceito e pelo desejo de discriminar.

Não é preciso ter notícias do Panamá para ver exemplos de apartheid sociocultural e de agressão. Não é preciso a vinda de nenhum ET para ocorrer apedrejamentos. Basta observar! Todos os dias pessoas são segregadas. Todos os dias negros, pobres, homossexuais, deficientes e pessoas pertencentes a grupos minoritários são apedrejados.

O mundo luta contra aquilo que vem de fora, com o inusitado, com o estranho. A literatura e o cinema estão cheios de exemplos. Humanos, mocinhos; extraterrestres, terríveis vilões. Talvez estas produções sejam formas de exteriorizar os nossos piores sentimentos diante do desconhecido, diante do terror sempre provocado pelo reconhecimento do outro. Mas o mundo se esquece de algo maior e imprescindível para um convívio melhor e pacífico aqui mesmo neste planetinha confuso: combater o mal que vem de dentro, que nos decepa a humanidade e nos torna cada vez mais parecidos com animais.


Ícaro Estrela

Marca-Passos

Não nos olhamos nos olhos

E perdemos tanto tempo

Com palavras sem sentido.


Somos duas pessoas

Que caminham em direções opostas.

Tu não me percebes e eu não te vejo

O ruído dos automóveis, das sirenas

Do tempo a correr

Não nos deixar escutar um ao outro.


Nesta cidade, onde tudo é de pedra,

(Até corações humanos)

Os arranha-céus parecem gritar

Levantar os braços aos céus

E esmolarem afeto.


Estou partido ao meio.

Como uma rua e suas encruzilhadas

Esperando-te passar.


Meu coração é um semáforo!

A luz sempre no amarelo

Sem parar, ou partir

Acelerado e estanque

Em um beco qualquer do peito.


Ícaro Estrela


Triste Verso Triste


Triste é o verso feito apenas de palavras.

Aquele que carece de calor humano,

De carinho e abraço.

Aquele que nunca sentiu o gosto real de um beijo

Para dizê-lo no poema, doce, tenro e mágico.


Triste é o verso que não sabe nada da vida.

Aquele verso oco e infértil

que feito um deserto abre seus mil-dedos na estrofe,

cujo oásis é sempre uma miragem

que encanta os olhos, mas nunca mata a sede

de quem por amor procura.


Triste é o verso que não tem nada a dizer

E diz um pouco de tudo.

O verso que tenta recriar o que lhe falta

Um verso torto, imperfeito

Cheio de palavras, mas

eloqüentemente mudo.


Ícaro Estrela